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20100128
Os mais velhos chamam-lhe Lola, os mais novos, Birinaite, alcunha que ficou do inglês que fala desde os tempos da emigração na África anglófona. Vive numa rulóte na beira de uma estrada que um dia será uma avenida, sonho de um presidente da Junta. Hoje só floresta. Durante o dia vagueia pela aldeia, de vinho em vinho, discutindo muito educadamente, como sempre repete; barafustando vai pá China, que não sabe onde é ou como é, mas sabe que é longe e isso é que importa. Foi uma glória do clube de futebol, um guarda-redes de categoria, como se comentava nos cafés, de tal modo que até a equipa da cidade o foi buscar. Hoje, quando caminha junto à escola, indiferente e distante, vulto esguio, passo trôpego, cara ossuda, nariz proeminente apontado ao chão, as crianças riem baixinho até que um mais corajoso grita jocosamente o seu nome Birinaaaaaaaaaaite! e desaparecem a correr. Acabado o dia, regressa e espera pacientemente pela hora em que jovens embriagados lhe vêm apedrejar a rulóte aos berros e às gargalhadas. De nada serve gritar-lhes, por isso fica inerte, deitado à espera que se vão de fartos. Levanta-se depois, resignado, e substitui mecanicamente todos plásticos furados da janelas, que foram outrora vidros, para que não entre o frio ou saia aquele que lhe gela a alma. Sobre a cama, acordado, não pensa em nada. Não sonha quando adormece. Esqueceu tudo. Esqueceu todos. Agora só dormir. Amanhã será o mesmo dia.
20100111
As Catutuas, como eles lhes chamam, montaram arraiais num pequeno casebre, isolado, na beira da estrada que liga o norte ao sul da guerra. Gémeas, brancas, com um par de tetas, ai menino!, são a perdição de todos os soldados que fazem aquele caminho enlatados nos camiões. Quando não estão dentro de casa, com o parque de estacionamento repleto, sentam-se na beira da estrada, fumando cigarros, acenando aos soldados que passam, conversando acerca de como muitos deles estão a ver uma mulher pela última vez e porque não param para sentir pela última vez o calor de um amor alugado, o melhor que se pode ter por ali. De vez em quando, segurando o cigarro no canto da boca, até lhes mostram piedosamente os seios, num gesto generoso e maternal. Os gritos, assobios e uivos dos soldados, pré-defuntos, desaparecem no fundo da estrada.
20100106
Quando entrei no café alguém dizia conta um golo fora de jogo e depois para compensar marca um penalty que não é. É a compensação, em tom jocoso, isso não existe na arbitragem, a compensação não existe. Que é isso? Sorri e assenti como se falasse da minha própria sobrevivência. A compensação não existe e um erro não se exorciza com outro. São dois erros. Pensei. Que importa mais posse de bola e mais remates? Isso não serve para nada. Os golos é que interessa. Assenti de novo. No fim, pouco interessam as fintas, as jogadas bonitas, a bola-no-pé, as desmarcações, os remates em jeito ou em força. No fim, só interessam os números luminosos. Só isso. Paguei o café e saí. Sei que o jogo ficou empatado, alguém marcou aos 90+3min.
20091110
Chegaste com um ramo de girassóis e deste-me um beijo na face.
Faço anos hoje. Como se eu não soubesse e não me quisesse
esquecer que era o teu aniversário. E não queria encontrar-te, por
acaso, nesta rua onde raramente passo e onde raramente passas e
onde raramente passa alguém. E foi por isso que por aqui vim. Do
fundo alguém chamou o teu nome. Tenho que ir. Não te despediste
nem te pedi nada, como da última vez. Virei para outra rua, onde
passa mais gente e onde esperava não encontrar-te, de novo, por
acaso.
Faço anos hoje. Como se eu não soubesse e não me quisesse
esquecer que era o teu aniversário. E não queria encontrar-te, por
acaso, nesta rua onde raramente passo e onde raramente passas e
onde raramente passa alguém. E foi por isso que por aqui vim. Do
fundo alguém chamou o teu nome. Tenho que ir. Não te despediste
nem te pedi nada, como da última vez. Virei para outra rua, onde
passa mais gente e onde esperava não encontrar-te, de novo, por
acaso.
20091104
Este koala deveria estar noutro sítio qualquer. Não sei onde. Já deveria ter ido a Nova York, pelo menos. Não foi. Agora está aqui, imóvel na prateleira do armário. Aquela flor lilás devia estar em Budapeste. Nem sequer sabe disso. Nunca, nem por uma vez, saiu deste lugar. Fazem agora companhia um ao outro e são felizes. Engendram planos para emigrar para Búzios e abrir um bar, ao estilo europeu, para os veraneantes do Rio. E nunca mais voltar.
20091102
20091029
Neca Preto, tem 65 anos. Está bêbado, à mesa com o seu amigo
policia-fadista, Óscar. Confessa-se criminoso. Perguntas à pj e toda
a gente me conhece. Foi mercenário de guerra, obrigado, e tem
um filho de 32 anos sem as duas pernas e um braço. Acidente,
diz Óscar. Tosse convulsivamente e cospe para um lenço. É um
homem revoltado mas não pede nada ao estado. Manda vir mais
uma garrafa de vinho, do outro porque deste já não há, que
oferece insistentemente à mesa vizinha, cheia de jovens estrangeiras.
Óscar repete que se cale. Canta-se o fado.
policia-fadista, Óscar. Confessa-se criminoso. Perguntas à pj e toda
a gente me conhece. Foi mercenário de guerra, obrigado, e tem
um filho de 32 anos sem as duas pernas e um braço. Acidente,
diz Óscar. Tosse convulsivamente e cospe para um lenço. É um
homem revoltado mas não pede nada ao estado. Manda vir mais
uma garrafa de vinho, do outro porque deste já não há, que
oferece insistentemente à mesa vizinha, cheia de jovens estrangeiras.
Óscar repete que se cale. Canta-se o fado.
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